Quando Hans Gunter Flieg (1923-2024) chega ao Brasil em 1939, com 16 anos, encontra uma nação em crescente processo de industrialização – o “país do futuro”, conforme o epíteto que o escritor de língua alemã Stefan Zweig apresentaria ao mundo em 1941. Esse país propiciaria, mesmo sob a ditadura de Vargas, a esperança de um mundo diferente daquele que o jovem Flieg deixara: a Europa destruída pela guerra empreendida pelo nazismo e pelo fascismo e por sua política de perseguição e extermínio de pessoas que, como o jovem fotógrafo, nasceram e cresceram numa família judaica.
Ao abrir seu estúdio fotográfico em São Paulo em 1945, Flieg vai se dedicar durante décadas a um trabalho de documentação de projetos industriais comissionados por grandes empresas, mas também a fotografias de arquitetura e de produtos que o seu olhar registrará como elementos estruturantes dessa sociedade industrial que desponta. A fotografia documental de Flieg, assim como o seu trabalho de publicidade, são ilustrações fascinantes da frase com a qual Marx tinha descrito a transformação da mercadoria em valor: “tudo o que é sólido desmancha no ar”. Ao fotografar os lugares da sociedade industrial, em que podemos encontrar a fábrica, a loja ou a Bienal de Arte de São Paulo, ao fotografar objetos produzidos industrialmente ou objetos de arte exibidos no contexto dessa mesma sociedade, Flieg vai encenar um meticuloso teatro do objeto e desses espaços – teatro em que o enquadramento construirá cada composição, articulando virtuosamente a luz, o contraste e a ordenação da realidade a partir da dimensão cenográfica de cada fotografia. Todos os paradoxos da relação entre a materialidade do mundo e a sua representação enquanto imagem, entre o objeto e a sua apresentação inobjetual, encontram na fotografia de Flieg uma síntese extraordinária, que esta exposição manifesta e documenta.
A exposição Flieg. Tudo o que é sólido foi apresentada inicialmente em 2023 na sede do Instituto Moreira Salles em São Paulo, por ocasião da comemoração ainda em vida do centenário do fotógrafo, falecido no ano seguinte, reunindo uma das obras autorais mais singulares e coerentes desenvolvidas na história da fotografia brasileira, recorte de um trabalho que acompanha de modo surpreendente as questões que haviam sido antes levantadas por fotógrafos e artistas da chamada Nova Objetividade no contexto da fotografia alemã, e da fotografia de arte conceitual dos anos 1960.
Com cerca de 180 fotografias, Flieg. Tudo que é sólido convida o público a ampliar o olhar sobre a indústria brasileira para além da produção material, reconhecendo seu papel na construção da cultura, da inovação e das formas de viver.







